Joana Jusa, Livre de Preconceitos

Atraída desde sempre pela arte dos cabelos, em 2005, trocou o curso de Design de Produto pela sua verdadeira paixão, o hairstyle. As noções de colometria e o sentido estético já faziam parte da sua “bagagem”, mas não deixou de investir na sua formação quando percebeu que o seu futuro passava por aqui. Em 2010 inaugurou o seu próprio “atelier” em Viana do Castelo, o RetroVisor. No ano em que celebra 15 anos de carreira, fomos conhecer a história da Joana Jusa, o seu lema de vida, os momentos mais marcantes do seu percurso profissional, as suas paixões e as suas expectativas.

 

Estava a frequentar a licenciatura de Design de Produto quando “decidiu dedicar-se a full-time à sua verdadeira paixão como hairstylist”.

Como é que nasceu esta paixão e o que a fez optar?

A ida ao cabeleireiro sempre foi fascinante para mim. Era uma arte que me suscitava curiosidade, e pela qual sempre me senti atraída. Poder escolher e ter poder sobre a minha imagem e como me apresentava ao mundo. Conversava imenso com as cabeleireiras que me atendiam e o interesse aumentava. Passava horas a projectar o meu próximo corte, criava imensos penteados em mim própria… Enquanto não tinha total certeza sobre o meu futuro, fui levando os estudos o mais longe possível, até ao dia em que deixei de me identificar com o que aprendia, comecei a arriscar e a cortar o cabelo a alguns colegas… Foi algo que foi crescendo e surgindo quase naturalmente.

Quais foram os primeiros passos? Como se formou?

O primeiro passo foi informar a minha mãe que iria desistir do ensino superior para me formar como cabeleireira (provavelmente a conversa mais difícil de sempre). E afinal, foi tão bem aceite, que ela própria iniciou a procura de escolas e cursos viáveis para mim. Ainda “sou do tempo” em que eram necessárias as três carteiras profissionais para podermos abrir o nosso próprio espaço, e esse tornou-se o meu objectivo: concluir as Carteira Oficiais de Cabeleireiro.


O que transportou do curso de design para a sua profissão enquanto hairstylist?

Todas as noções de colorimetria de forma mais aprofundada, foram claramente, numa fase inicial, uma aprendizagem valiosa, bem como as noções de ângulos, elevações, poder de abstracção e de projecção no espaço! Depois outras aprendizagens demonstraram-se fundamentais para o que sou hoje: sentido crítico, sentido estético, história da arte e do design, desenho técnico (uma lista bem extensa) … São conhecimentos que hoje em dia representam uma base sólida no que diz respeito à criação de visuais. Conhecer as influências, perceber a sua história, para depois a poder “desconstruir”, e quase reinventar, tornou-se uma arma muito poderosa no meu dia-a-dia.

Este ano celebra 15 anos de carreira. O que foi determinante no seu percurso para o reconhecimento que tem hoje?

A persistência, a disciplina, a aprendizagem constante e a insatisfação. Continuam a representar pilares no meu dia-a-dia.

Fez formação em Portugal, mas também em academias internacionais onde “vai procurar mais e melhor”.
Porque sente esta necessidade?

Eu sou formadora em Portugal, e fiz imensa formação a nível nacional. Apostar na formação internacional é um complemento essencial no meu ponto de vista. É dirigir-me às escolas mais clássicas (como a Toni & Guy) para perceber as bases sobre as quais construímos o que fazemos por cá. É ir conhecer as academias mais “avant-garde” (como a Not Another Academy), sabendo que, naturalmente, em Portugal recebemos alguma, mas valiosa, informação com algum tempo de atraso em relação a Londres, neste caso. É ir ao centro das tendências. Nota-se, claramente, que tenho um fascínio pela escola inglesa.

Como é que selecciona as academias onde faz formação? Quais são os principais critérios?

Acima de tudo tenho de me identificar com a ideologia e com as técnicas, de alguma forma. Se me identifico com os seus métodos ou se tenho curiosidade sobre eles, tenho de lá ir.

Em 2010 abriu o RetroVisor. O que a levou a abrir o seu próprio espaço?

Enfrentei uma situação de desemprego, numa altura em que a crise económica se instalou em Portugal. Eu tinha estado a trabalhar numa rede de cabeleireiros em que cada hairstylist era o responsável pelo cliente do início ao fim. Eram dois factores que tornavam difícil a adaptação a um salão de cabeleireiro mais pequeno, em que seria mais uma “ajudante” e que poderia estagnar o meu crescimento, com a agravante de que a oferta de emprego não era muito vasta.

Qual é a história do RetroVisor?

O conceito do RetroVisor era quase o reflexo da minha personalidade. Um espaço que não fosse visto como “mais um salão de cabeleireiro”, mas no qual acontecesse “algo” para além disso. Em relação ao nome, eu sabia que não queria um espaço com o meu nome, queria um espaço em que todos os colaboradores tivessem a oportunidade de crescer sem estarem associados a uma pessoa (a mim, neste caso), e que se pudessem desenvolver individualmente enquanto profissionais e artistas. Depois de um brainstorming brutal, surge o nome RetroVisor. Este tem sempre uma explicação diferente, e a explicação de hoje é que o retrovisor é onde a maioria das pessoas se vê quando sai do cabeleireiro e aprecia o seu novo visual.

 Que serviços oferece?

No RetroVisor podem encontrar todo o tipo de serviços, de cabeleireiro e estética, para homem e mulher. Cortes e cores são, sem dúvida, o nosso core business.

Porquê Viana do Castelo?

Depois de ter estudado em Viana, identifiquei-me imenso com a cidade, e reconheci a qualidade de vida que me poderia oferecer. Neste momento acredito muito que, para ser o que é hoje, o RetroVisor tinha mesmo de começar numa cidade como Viana. Numa qualquer outra cidade a sua essência não seria a mesma, e se calhar não faria tanto sentido…

A Joana também assume a gestão do salão? Que importância atribui a outras áreas como gestão de equipas, facturação, marketing, etc.?

Todas as áreas relacionadas com a gestão do espaço são igualmente importantes. É importante eu conseguir proporcionar uma experiência no que diz respeito ao tratamento da imagem de um cliente, mas um espaço só sobrevive se, a par disso, existir uma boa gestão de equipa, um controlo financeiro, uma boa aposta em marketing. Nem sempre é fácil acumular todas estas funções, mas os anos no terreno também nos trazem aprendizagem e crescimento nesse aspecto. Gosto sempre de frisar que, apesar de não trabalhar fisicamente connosco, o meu marido é uma ajuda indispensável no que diz respeito a essas áreas de “bastidores”.

Que canais utiliza para fazer a comunicação do espaço e do seu trabalho?

A comunicação do RetroVisor é feita, essencialmente, através de Facebook e Instagram. Praticamente ainda não sentimos necessidade de investir em publicidade, mas dedicamos muito tempo, e energia, às nossas redes sociais.

Como olha para o potencial do digital e de que forma esta pandemia veio acelerar a digitalização dos negócios? O que mudou no seu caso?

Se nós já éramos “super virados” para o digital, durante o confinamento ainda aprimoramos mais essas competências. Era importante mantermos o contacto com os nossos clientes (os habituais e os potenciais) e criar canais de comunicação e interacção. As pessoas estavam mais “ligadas” do que nunca, 24 horas por dia, carentes de informação e afectos, estavam a surgir oportunidades únicas para criarmos laços! Tirei partido deste período para me conectar, também, com outros artistas: dei formação juntamente com a Tribo Redken Brasil, através de lives no Instagram. Participei em formações de marketing e comunicação digital (mais uma vez, assisti a uma formação ministrada pela equipa digital do Not Another Salon/Not Another Academy), e iniciei uma formação em Programação Neuro-linguística, que será importante para a gestão de equipa, mas também em comunicação com clientes.

“Neste espaço os clientes têm liberdade para serem eles próprios. Livres de preconceitos.”
Esta é a identidade do seu espaço?

O meu sonho é que essa seja a identidade da sociedade e do mundo em geral. Gosto de acreditar que, se mudar o meu jardim, dou um ar diferente à minha rua. Não podendo erradicar o preconceito do Mundo, posso criar um espaço onde ele não exista… Quantas vezes nos debatemos, o que é o nosso “eu” real e o que é o nosso “eu” socialmente aceite? No RetroVisor esses dois “universos” podem tocar-se e coexistir sem que ninguém o julgue pelo seu corte ou pela sua cor de cabelo.

É reconhecida pela criatividade dos trabalhos de coloração e pelas mudanças de visual, algumas bem radicais… Como nasceu o fascínio pela coloração?

Costumo dizer que não fui eu que escolhi a cor, foi ela que me escolheu a mim! Eu saí de um salão onde ocupava o lugar de “conselheira de imagem”. Eu criava o visual, executava o corte e uma colega (a responsável pela execução técnica) assumia a parte de coloração. Conclusão: eu estava formatada para o corte, essencialmente. Quando comecei a trabalhar sozinha, no RetroVisor,  os visuais que eu imaginava tinha de executar. Comecei a ser requisitada e procurada por pessoas que desejavam ter visuais mais arrojados e alternativos, o que incluía as cores de cabelo mais vibrantes e menos naturais. Então não tive outra hipótese, senão desenvolver essas técnicas.

Como é feito o processo de construção de visual com a cliente?

As bases de um visual que se adequa à individualidade de cada um, têm de ser a personalidade da pessoa e a imagem que ela quer transmitir. Esse é o ponto de partida. É um processo que se torna mais fácil à medida que vamos conhecendo cada vez melhor a pessoa que está sentada na nossa cadeira. Mas se for o nosso primeiro contacto há sempre perguntas-chave que podem ser colocadas. Só depois de percebermos a essência, é que podemos trabalhar a parte externa.

Como é que se constrói essa confiança com a cliente?

Gosto sempre de me dar a conhecer, o mais possível, o que hoje é mais fácil, pelo uso e alcance das redes sociais. Se a pessoa sentir que já nos conhece, que conhece os nossos gostos e o nosso trabalho, é mais fácil sermos um profissional “confiável”. Mostrar que o nosso maior interesse naquele momento é a cliente, que estamos ali para construir a sua felicidade e para concretizar sonhos, termos um portfolio disponível para consulta, e um discurso seguro e coerente, serão sempre a base de uma relação de confiança.

E o que torna possível praticar uma “coloração criativa”? Que técnicas são determinantes e que papel tem aqui, uma vez mais, a formação?

Empenho, compromisso, dedicação e disciplina. Não posso oferecer um serviço sem dominar os conhecimentos e as técnicas. Foi muito investimento em pesquisa, formação, procura de novas e melhores técnicas, conhecimentos aprofundados de colorimetria, e muitos testes, muitas experiências! A formação aumenta a nossa bagagem a nível de conhecimento e de criatividade. Quanto mais eu via fazer, mais aprendia e mais praticava a criatividade. Fundia técnicas que via, com outras que criava. Em formação é permitido cometer erros, e aprender a corrigi-los. Aprendemos, também, com os erros e as experiências dos outros.

 Desde 2016 que começou a lançar colecções, surpreendendo a cada ano pelos temas e propostas apresentados, tendo já alcançado um patamar internacional.O que a motiva a criar e onde procura inspiração?

Quando estou a criar uma colecção, é dos poucos momentos em que não tenho rédeas. Não tenho expectativas de clientes para corresponder, não tenho limitações e imposições por parte da pessoa que vai usar o meu visual. É o momento de deixar a mente voar para onde ela quiser. É o meu escape, e onde posso, mais uma vez, encontrar novas técnicas para futuramente aplicar no meu dia-a-dia. 

 

Com a sua colecção Fear of the Dark, (2018), realizou um sonho antigo de fotografar com David Arnal. Qual a importância de ter um fotografo profissional na equipa de uma colecção e o que é que ele representa para si?

Ter um fotografo que veja o cabelo como o foco da fotografia, e que saiba como captar a sua essência é totalmente diferente. Cada fotografo tem a sua especialidade, e quando queremos fotografar cabelo, nada como ter um especialista nessa área. Ele sabe o que se pretende com essas fotografias, sabe o que captar. Não é por acaso que já tem uma colecção interminável de capas de revistas da nossa área. A par do fotografo, foi uma colecção que teve uma equipa profissional completa: modelos, styling e maquilhadora (detentora de um prémio Goya). Por tudo isto, e ter estado uma semana em Valência apenas a projectar e a realizar os visuais e a sessão, torna-se uma colecção com um lugar especial na minha história, que termina com uma fotografia que ganhou destaque nos International Hairdressing Awards.

 

Porque é que a colecção “Behind the Mask”, lançada no período pós confinamento, é tão especial?

Behind the Mask tinha de acontecer. Por toda a conjectura, eu achava que este ano não teria condições para fotografar uma colecção. O momento não era o ideal, nem sabia se ele iria realmente existir. Mas com o desconfinamento existiu um “renascer das cinzas” quase global! O meu e o dos clientes… estávamos a apaixonar-nos novamente pela vida, e eu pela profissão. Então tinha mesmo de fazer acontecer. Não podia deixar de registar este momento, com máscaras e tudo! Os visuais não foram apenas projectados por mim, foram pedidos dos clientes, e tudo foi fluindo… O que vêem é o culminar de um qualquer “desconfinamento”, meu, dos clientes, do mundo…

Como é que um profissional se prepara para uma contínua adaptação como foi o recente período de confinamento? Que alterações trouxe no seu dia-a-dia?  

Não acho que se prepara…  vamos ganhando jogo de cintura com as diversas situações com que somos confrontados. Somos testados, e o nosso poder de adaptação é testado também. O poder de nos reinventarmos existe, podemos não saber bem onde está ou como o activar, mas com criatividade chegamos lá. Fui obrigada, como toda a gente, a reinventar-me, a manter-me pró-activa e conectada (acima de tudo conectada a mim mesma), e a criatividade e a mente inquieta foram as minhas maiores armas no período de confinamento.

Como está a correr o período de desconfinamento?

As primeiras semanas foram muito duras. Estávamos a sofrer, talvez, de uma espécie de stress pós-traumático devido ao longo período de confinamento. E, sem ter tempo para me curar, tive de sofrer com toda uma realidade que julguei sempre estar “super” preparada, mas que afinal não estava… o foco era manter a equipa, o espaço e os clientes o mais seguros possível, só depois é que me focava nos cabelos. Fiquei com as prioridades trocadas, mas com o tempo tudo está a “normalizar” e a segurança já anda a par da criação!

Passada a fase inicial em que os clientes literalmente “correram” para o salão para cortar o cabelo ou para fazerem coloração, que serviços procuram actualmente?

Sinto que existe também do lado deles um regresso à normalidade. Depois da correria para serviços de “salvamento” (cabelos em desespero por serem cortados, crescimentos para verem a sua coloração retocada), agora voltamos aos serviços de “manutenção”, ainda com muitas mudanças de visual pelo meio.

É uma das mais recentes Redken Artist. Em que contexto surgiu este convite?

Numa altura em que era notória a minha ligação e a minha paixão pela arte e pela formação, a Redken abordou-me e, após um “namoro” de meio ano, decidimos juntar os trapinhos!

Que dimensão lhe trouxe esta parceria e o que gostaria de alcançar em conjunto?

Pertencer a esta equipa, trouxe-me a oportunidade de trabalhar com outros profissionais que admiro imenso (equipa Redken Artist), sendo que alguns deles são referencias para mim desde o meu início na profissão. A Redken é uma marca com muito foco na aprendizagem constante, com grande projecção e iniciativa internacional, o que me alicia desde sempre. Apostam fortemente na formação e é a sua preocupação “número 1”, o que vai de encontro a tudo aquilo em que acredito e que faz falta aos profissionais da nossa área. Hoje vou querer sempre alcançar um pouco mais do que ontem, crescer sobretudo profissionalmente (dentro do retrovisor e na formação) e sei que a Redken é a parceria ideal para esse percurso.

Como se sente no papel de formadora agora reforçado?

Acredito que aprendo sempre mais um pouco enquanto educo, dedicar-me à formação ajuda-me a manter a vontade de aprender e evoluir cada vez mais, e esse é o papel mais importante.

De algum modo alterou a sua visão da profissão e daquilo que deseja para si para o futuro?

A parceria com a Redken não só me abriu mais horizontes, como veio reforçar os objectivos que já tinha e que estariam mais ou menos adormecidos. Restabeleci a esperança de que é possível lutarmos por uma classe de profissionais mais qualificados e mais competentes. Como já referi, o que desejo é que nunca pare de aprender e de evoluir, e sem dúvida que esses pilares vão muito ao encontro das ideologias da Redken.